O que há além dos Jardins Murados?
A Internet atualmente é cheia de Jardins Murados: Facebook, Discord, Telegram, Twitter. Lugares onde as empresas tentam fazer você ficar o máximo possível, sem conversar entre si, sem ter uma forma de sair dali, com links para outros locais sendo punidos.
Mas a Internet não tem que ser assim. Há coisas além dos Jardins Murados. Resquícios de uma Internet que, um dia, já existiu. Uma Internet caótica, fora dos controles dos Jardins Murados, que ainda respira, onde realmente navegamos. Mas antes, um pouco de história.
Antes dos Jardins Murados da Internet de Hoje
Antes dos Jardins Murados, a Internet era bem mais livre do que hoje. Eu admito, não vivi o começo da Internet, mas vivi um pouco da transição. Lá pra 2010, ano em que comecei a ter uma conexão de Internet mais decente, havia muitos Blogs em que as pessoas postavam seus conteúdos e Fóruns onde as pessoas discutiam diversos assuntos. Eu realmente me lembro de, volta e meia, frequentar o Minilua, o Viva o Linux, e Fóruns como o Ubuntued e o do Linux Mint Brasil.
Não dependíamos de Redes Sociais para postar nossos conteúdos; no máximo, havia o Orkut, mas era somente para nos conectarmos com amigos; tínhamos plataformas de Blogs como o Blogger e havia sites pessoais, onde eram postadas as experiências de todos. Até o Instagram, que surgia no mesmo ano, servia para postarmos nossas fotos pessoais.
Porém, a Internet foi se tornando mais móvel. Paramos de depender de um Computador de Mesa - que estaria disponível num único local, em uma determinada hora do dia - e passou a estar no nosso bolso o tempo todo, deixando de ser um local separado, onde realmente “entrávamos” e se tornou algo presente o tempo todo e cada segundo
A Transformação da Internet em Feudos
E aquela Internet Aberta, que havia nos anos 2000 e no começo da Década de 2010, foi se fechando em pequenos feudos, com os novos Senhores, sendo as Big Techs, tais como Google, Apple, Meta e Amazon.
Deixamos de ser os donos dos nossos conteúdos, e passamos a ser Servos, onde o Senhor daquele feudo decide o que será ou não divulgado, em troca dos nossos dados pessoais e da nossa atenção. E vários sites pessoais, portais e fóruns foram morrendo aos poucos.
Passamos a ter medo de que o Senhor do feudo nos expulsemos e que mudasse as regras do nada. Mas, isso teria alguma solução? Há como pular esses muros?
O que há além dos Muros?
E a resposta é sim. Além desses portões fechados, há uma certa resistência silenciosa, que mantém o espírito original daquela Internet dos anos 2000. Aquele espírito mais aberto, em que você é dono do seu próprio conteúdo e mantém controle sobre o que você consome.
Blogs, IndieWeb, Fediverso e RSS. Essas são as bases do que há além desses muros.
Blogs, um “Diário Virtual”
Os Blogs seriam mais ou menos como a sua própria casa na Internet, um Endereço onde podem te encontrar e que não podem tirar de você e que não depende de um algoritmo para decidir o que você vai ou não ver.
É algo que pode ser feito no seu tempo, com seu ritmo, com seus trejeitos, o design e as cores que você mesmo escolhe, e com a garantia de que aquele espaço é genuinamente seu - o seu Porto Seguro.
IndieWeb, a volta da Internet mais íntima
A IndieWeb é o movimento em que as pessoas deixaram de ser inquilinas das Big Techs e passaram a serem donas das suas identidades na Internet. E é de uma filosofia simples: Você tem o seu domínio, o seu terreno e onde a sua vida digtal fica.
Ao invés de termos que nos sujeitar ao o que o Algoritmo gosta, podemos fazer o que realmente gostamos. É o retorno de uma Internet mais íntima, em que mostramos o que realmente gostamos, o que nós somos e nos tornamos o verdadeiro autor do que fazemos.
Fediverso, as Redes como deveriam ser
Já o Fediverso, é bem simples: são redes que funcionam de uma forma mais descentralizada. Como assim? Podemos pensar no E-mail, onde não importa qual provedor, se você tem um Outlook e seu amigo um Gmail, você pode se comunicar com seu amigo.
E o Fediverso funciona dessa mesma maneira. Não importa qual servidor do Mastodon que você está, você consegue se comunicar com os outros, sem ter uma empresa mandando em tudo.
E de certa forma, nem mesmo importa onde você está no Fediverso: Você pode seguir e ver o que seu amigo posta, mesmo de outras Redes Sociais que participam no Fediverso, por meio do ActivityPub.
RSS, controlando o que você consome
Se tem uma arma contra os algoritmos das Redes Sociais, ela se chama RSS. Aqui, você realmente tem o domínio do que você consome, basta instalar um Leitor de RSS, coloca os Blogs e Sites que você gosta e sempre que algo novo é postado, você recebe diretamente.
Sem ter um Algoritmo te viciando naquela Rede e escolhendo o que você vai ver. Você é o Senhor do que você mesmo consome.
Por que ter um Blog?
Se você está lendo e chegou até aqui, talvez, esteja se perguntando: Vale a pena o esforço de manter um site hoje em dia? A resposta é que os motivos mudaram. Antes, tínhamos Blogs para tentar viralizar e hoje, criamos Blogs para sermos quem realmente somos.
E quais motivos de se ter um Blog? Esses acabaram sendo os meus motivos:
Você melhora no silêncio
Sem a pressão das métricas que clicam em sua vaidade, você faz o que realmente gosta e melhora no que realmente gosta e consegue ser mais honesto e profundo.
Mesmo que você vá postar nos Jardins Murados, no Blog pode ficar o que há de mais profundo no que você postou. Para artistas, os processos para se chegar ao resultado e as inspirações, enquanto que nos Jardins Murados, pode ficar o resultado de todo o trabalho.
Um diário de bordo organizado
Além disso, os Blogs podem se tornar o seu Diário de Bordo, um relatório público do quão longe você foi, do quanto você evoluiu, do que se formou e se transformou dentro de você e do que você aprendeu com o tempo.
Por exemplo: Eu tenho o Cantinho do Romeo e o made by romeo que se tornaram o meu diário de bordo do que desenho e do que aprendi.
Esse Blog, a toca do rapoelho, se tornou um diário do que estou fazendo no momento, seja postagens de tutoriais do que aprendi, análises do que estou testando ou mesmo projetos que estou construindo.
Um post por si só, não é muito. Mas em mil posts, dá pra ver uma evolução no que fazemos, o que aprendemos e o que mudou. E tem outra coisa nisso: O Blog é um Diário de Bordo organizado do jeito que você quer, com as suas etiquetas e categorias, com tudo sendo encontrável, e nada ficando perdido na bagunça de um Feed de Rede Social.
Seu Porto Seguro, longe das Turbulências
Quem, em 2017, imaginaria que o Tumblr iria proibir conteúdo NSFW? Ou mesmo, quem em Janeiro de 2024, imaginaria que o Twitter seria banido por mais de um mês no Brasil?
Enfim, Redes Socais, como a maior parte das coisas na Internet, são muito turbulentas. Nunca se sabe o dia de amanhã. A Rede Social em que você está, pode ou ser obliterada por alguma mudança que desagrade todo mundo ou a sua conta pode sumir, junto com todo o seu trabalho.
Já os Blogs, pra mim, são como um Porto Seguro para onde você sempre pode voltar de mares turbulentos. Um lugar onde você pode deixar o seu trabalho arquivado e organizado. Além disso, o Wayback Machine guarda alguns links do seu Blog automaticamente, e o seu conteúdo fica eternizado.
Um Castelo no seu Reino para chamar de seu
Certa feita, eu estava navegando pela Internet, quando me deparei com um artigo chamando “Don’t build your Castle in Other People’s Kingdoms” e que me chamou a minha atenção e que fala da importância de se ter um Reino para chamar de seu e construir o seu Castelo em terras que são suas.
Mas o que é esse tal reino? Segundo o artigo, compoõe esse Reino:
- Um site num domínio que você é dono;
- Seu Blog hospedado em seu site;
- Uma lista de e-mails
- A sua Propriedade Intelectual que você detém e possa licenciar;
- Mercadorias que você vende eu seu site;
- E a sua própria reputação.
E mesmo que a sua lista de emails esteja hospedada em algum serviço e o seu site esteja em uma empresa de hospedagem, eles são invisíveis ao seu leitor. E normalmente, você pode migrar facilmente para outro serviço.
Por exemplo, o próprio Cantinho do Romeo começou no WordPress hospedado na Hostgator. Estava insatisfeito com a Hostgator e resolvi migrar para a Hostinger. E tudo de forma transparente, pois o conteúdo era realmente meu, sem ter que recomeçar do zero em outro lugar.
Como construir o seu Castelo no seu Reino?
Sei. Por vezes, falar em “manter um site”, pode dar um pouco de medo, principalmente em questão de lidar com código, ou mesmo em manter um servidor. Mas há opções que são simples, mas que mantém a independência. E são algumas delas:
- Bear Blog: Se você quer apenas escrever, esse é o local. Ele é muito leve e bem rápido, carregando rápido mesmo em conexões ruins com as páginas sendo baseadas em texto puro.
- Wordpress.com: É a versão simplificada do Wordpress, que move boa parte da Internet. Apesar do plano Gratuito ser bem limitado e os Pagos serem meio salgados, você não tem que se preocupar em manter um Servidor WordPress e tem um ecossistema bem grande de Temas e Plugins, permitindo personalizar bastante o site.
- Blogger: É mantido pelo Google e não mudou muito nos últimos quinze anos. Continua simples, gratuito, focado em Blogs e fácil de configurar.
Castelo para Artistas
E para os Artistas? Meio que, os Jardins murados se tornaram hostis, com plataformas como o Instagram (que surgiu para fotos) priorizando vídeos e usando o trabalho dos Artistas para alimentar as Inteligências Artificiais. Aqui, o “Castelo” é um pouco diferente, então as opções mudam um pouco.
- Pixelfed: É o Instagram do Fediverso, focado em Fotos e Ilustrações e com zero anúncios. Naquela ideia do Fediverso, ele até pode se comunicar com outras redes que participam desse universo, com você podendo seguir o artista do Pixelfed no Mastodon, por exemplo.
- Cara: Um Portfólio e Rede Social feito especificamente para artistas, livre de Inteligência Artificial - banindo imagens geradas por IA - e com tecnologias que impedem dos Robôs “rasparem” as obras que estão por lá.
- Tumblr: Sei, eu falei do Tumblr ali em cima, mas ainda continua sendo uma opção para artistas e os posts por lá não são tão efêmeros quanto num Twitter da vida, além de poder funcionar como um Blog.
Quero algo verdadeiramente meu!
E se você quiser algo verdadeiramente seu? Também há essa opção! Embora, um pouco mais técnica, e você tenha que mexer com códigos, principalmente HTML, CSS e JS, essa é uma opção que dá ainda mais liberdade.
Mas, se você vai criar algo assim, tem que ter um local para hospedar e pagar caro por isso, certo? Bem, existem opções gratuitas e incríveis, feitas para a Web independente:
- Neocities: O Neocities é uma reencarnação do antigo - e lendário - Geocities, sendo um dos lugares onde os sites da IndieWeb são hospedados. Oferece hospedagem gratuita, onde se pode colocar os arquivos estáticos, além de uma comunidade onde os criadores podem seguir uns aos outros e acompanhar as atualizações dos sites.
- Nekoweb: Outra alternativa estritamente estática, e que dá total liberdade criativa, com suporte a domínios personalizados e longe de rastreadores e anúncios.
Agora, se você é alguém que tem familiaridade com Git, tem essas alternativas:
- Github Pages/Gitlab Pages: Integrados diretamente às Plataformas de Código Github e Gitlab, esses dois também oferecem hospedagem de graça. A mágica aqui é que, basta um
git pushque o conteúdo estará atualizado. - Vercel: Se você ainda usa o Git e quer algo fora do Github/Gitlab, esse pode ser o seu lugar. Essa plataforma é bem rápida e lida com o processo de compilação em segundo plano, de forma invisível nos bastidores.
O meu caminho: a leveza de um Site Estático
Eu estava num Jardim Murado desde 2017, quando criei o Cantinho do Romeo no Facebook e sofri um pouco do que é não ser dono do próprio conteúdo: Um belo dia, no começo de 2019, todas as postagens que havia feito ao longo de 2018 na página do Cantinho do Romeo haviam desaparecido.
Utilizando o WordPress
Apesar das postagens terem voltado alguns dias depois, acabei indo buscar por alternativas, até que decidi criar um Blog, em Abril de 2020. Inicialmente no Wordpress, que era o que conhecia, e assim ficou por quase sete anos. Primeiramente, hospedado pela Hostgator e depois, indo para a Hostinger.
Apesar do WordPress ser mais flexível do que as Redes Sociais, comecei a ver algumas coisas que me limitavam, como os temas, onde eu não conseguia mexer em algumas coisas que gostaria e em outros aspectos de como as coisas funcionavam no WordPress e que eu precisava de Plugins.
Além disso, para poder testar localmente o que eu gostaria, eu teria que instalar a pilha LAMP, o que é meio difícil de manter. Mas mesmo assim, continuei no WordPress por um bom tempo.
Um Ambiente Gráfico simplificou tudo
Até eu voltar a usar o Linux - um SO que eu não usava havia dez anos, e o Openbox, uma Interface Gráfica que eu adorava, mas que vinha sem nada configurado, mas permitia configurar tudo da maneira que eu realmente queria.
E assim, nessa onda de simplicidade e de criar coisas por mim mesmo, resolvi testar algo diferente para criar um novo Blog: o Hugo, um Gerador de Site Estático.
E gostei, e assim criei a toca do rapoelho usando o Hugo, como todo o processo de criar o Blog e colocar online. E ao contrário do WordPress, eu tinha que fazer tudo na mão. O que é uma desvantagem e uma vantagem. Desvantagem, pois não é tão simples implementar algumas coisas que no WordPress é só instalar um Plugin. Vantagem, pois essas coisas podem implementadas da maneira que eu realmente queria.
Foi assim que fiz, por exemplo, com a postagem em Redes Sociais, tanto do made by romeo, quanto da toca do rapoelho. E como o Hugo funciona?
A Flexibilidade Estática
É elegantemente simples: O Hugo funciona transformando arquivos Markdown e templates escritos numa mistura estranha de HTML/CSS com Golang em arquivos HTML, CSS e JS que podem ser hospedados em algum Servidor pela Internet. Simples assim, mas com algumas concessões.
Não tenho um CMS para poder escrever, mas posso escrever em qualquer editor Markdown, sem distrações e estando offline. E, por não ter um CMS, não tenho como agendar postagens, mas consigo remediar isso executando o Script de publicação com o comando at.
Mas, por outro lado, consigo organizar os posts e arquivos do meu Blog da maneira que me convém e do que ele pede. E vendo a flexibilidade do Hugo, acabei tentando migrar o Cantinho do Romeo para o Hugo, mas como seria muito trabalhoso por ter mais de novecentas postagens, criei um novo Blog do zero: o made by romeo.
O Caminho menos percorrido
Esse é um caminho mais consciente, exigindo um bom esforço inicial, pois é muito mais fácil se render ao conforto dos aplicativos unificados, aceitar os termos de uso e deixar que os Algoritmos decidam o que devemos ou não consumir e/ou produzir. No entanto, deixamos de ser os Senhores do que produzimos, com tudo ficando mais efêmero.
Então, deixar os feudos digitais e construir o próprio Castelo em seu próprio Reino - seja escrevendo num Blog, publicando ilustrações sem os filtros dos algoritmos ou controlar o que consumimos via RSS - é uma forma de resistir aos muros, provar que a Internet ainda pode ser um espaço em que podemos realmente ser nós mesmos, sem as máscaras digitais e sem nos tornamos meros avatares digitais, caricaturas de nós mesmos.
Mas, cruzar esses muros não tem que significar se isolar do mundo ou mesmo decretar que é o fim das redes comerciais. É apenas a relação com a Internet que muda: deixamos de ser Produto, para sermos Produtores. Aquela Internet mais íntima do começo dos anos 2000 não morreu: Ela continua viva e vibrante, apenas esperando que você dê o primeiro passo para fora dos muros.
Adotar esse caminho não significa que você deva abandonar as Redes Comerciais. Tanto a Web independente e os Jardins murados podem conviver, inclusive se comunicando entre si, com o seu Castelo se tornando o seu Quartel-General da Internet.
